O embaixador, historiador e poeta Alberto da Costa e Silva nasceu em São Paulo, em 12 de maio de 1931, filho do poeta piauiense Antônio Francisco da Costa e Silva[1] e de Creusa Fontenelle de Vasconcellos da Costa e Silva. Em 1943, depois de terminar o curso secundário em Fortaleza, mudou-se para o Rio de Janeiro. Nessa cidade, após concluir os estudos no Instituto Lafayette, ingressou no Instituto Rio Branco (IRBr), o qual concluiu em 1957. Entre 1971 e 1972, Costa e Silva retornaria ao IRBr na condição de professor do Curso de Aperfeiçoamento de Diplomatas (CAD); foi ainda presidente da banca examinadora do Curso de Altos Estudos (CAE) do IRBr entre 1983 e 1985, e vice-presidente, entre 1995 e 2000.
Ao longo de sua carreira como diplomata, Alberto da Costa e Silva destacou-se como articulador das relações bilaterais do Brasil com países africanos e ocupou cargos relevantes em Brasília, como o de chefe do Departamento Cultural, entre 1983 e 1984. Também foi subsecretário-geral de Administração (1984-1986) e inspetor do Serviço Exterior (1995-1998). No exterior, serviu inicialmente nas embaixadas em Lisboa (1960-1963), Caracas (1963-1964) e Washington (1969), como secretário, e em Madri (1974-1976) e Roma (1977-1979), como ministro-conselheiro. Assumiu seu primeiro posto como embaixador, em Lagos, na Nigéria (1979-1983), cumulativamente com Cotonu, no Benim (1981-1983). Também serviu como embaixador em Portugal (1986-1990), na Colômbia (1990-1993) e no Paraguai (1993-1995). Além disso, representou o Brasil em importantes reuniões multilaterais: foi delegado do País na reunião da Comissão Econômica das Nações Unidas para a África, em Adis Abeba, em 1961; representante pessoal do ministro das Relações Exteriores nos encontros ministeriais, realizados em São Domingos, em 1984, pela Organização dos Estados Americanos (OEA), para a preparação das comemorações do V Centenário do Descobrimento da América; e representante pessoal do chanceler na Reunião dos Ministros das Relações Exteriores do Mecanismo Permanente de Consulta e Concertação Política (Grupo do Rio), em 1991. Em reconhecimento à sua longeva e notável carreira, Alberto da Costa e Silva foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco.
No que se refere à política externa brasileira para a África, em particular, Alberto da Costa e Silva acompanhou os processos de independência de países africanos, no decorrer dos anos 1960, a chamada “década da África”. Como assessor do chanceler Mário Gibson Barboza, ele foi responsável por informar e orientar o posicionamento brasileiro no contexto das independências de Angola, Cabo Verde e Guiné-Bissau; encontrava-se, inclusive, em Lisboa, quando da eclosão da Revolução dos Cravos, em 1974, que culminou no fim do regime salazarista e na transição de governo no país. Como embaixador na Nigéria, Alberto da Costa e Silva recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Obatemi Awolowo de Ifé; já em 1987, como embaixador brasileiro em Lisboa, o diplomata participou da comissão nacional para as comemorações do “Centenário da Abolição da Escravatura”; dez anos mais tarde, em 1997, integrou o Comitê Científico do Programa Rota do Escravo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, na sigla em inglês), até 2005. Por fim, a influência de Alberto da Costa e Silva sobre a formulação da política externa africanista do País transcende seus anos de carreira. Como embaixador, ele escreveu A Enxada e a Lança: a África antes dos Portugueses (1992), e, já aposentado, A Manilha e o Libambo: a África e a Escravidão, de 1500 a 1700 (2002) e Um Rio chamado Atlântico: A África no Brasil e o Brasil na África (2003), obras que versam sobre os laços históricos, sociais e culturais que unem o Brasil ao continente africano. Pela obra A Manilha e o Libambo, Alberto Costa e Silva foi agraciado com os prêmios Sérgio Buarque de Holanda, da Fundação Biblioteca Nacional, e Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, ambos em 2003. Em Um Rio chamado Atlântico, o diplomata consagrou visão historiográfica que enfatiza a proximidade entre o Brasil colonial e países da costa oeste africana[2], no contexto do processo de conformação da identidade brasileira. Ademais, o embaixador defendia a Língua Portuguesa, notadamente no âmbito da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), como elo fundamental das relações Brasil-África, capaz de auxiliar na construção de uma comunidade e de transpor o obstáculo do histórico colonial de dominação e violência.
Acadêmico e intelectual, Alberto da Costa e Silva foi poeta e ensaísta, historiador e africanista, abordando uma vasta gama de temas em suas obras. Em 27 de julho de 2000, foi eleito para ocupar a Cadeira 9 da Academia Brasileira de Letras (ABL), instituição que presidiu entre 2002 e 2003. O diplomata foi o quarto ocupante dessa cadeira, sucedendo a Carlos Chagas Filho.
Além de ser autor de importantes obras africanistas, Alberto da Costa e Silva também publicou livros de poemas, como O Parque o Outros Poemas (1953) e Poemas Reunidos (2000), este último tendo recebido o renomado prêmio Jabuti. Também foi autor de ensaios, como Castro Alves, um Poeta sempre Jovem (2006) e de livros de memórias, como Espelho do Príncipe (1994), O pai do menino (2008) e Um Passeio pela África (2006). Escreveu também sobre artes plásticas, como na obra O Quadrado Amarelo (2009), que reúne diversos de seus ensaios. Em 2004, o diplomata foi escolhido pela União Brasileira de Escritores (UBE) e pela Folha de São Paulo como “Intelectual do Ano” (Prêmio Juca Pato). Em 2014, pelo conjunto de sua obra, Costa e Silva foi distinguido com o Prêmio Camões, o mais renomado da Língua Portuguesa, além de ter sido designado acadêmico correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.
São muitos os predicados do embaixador Alberto da Costa e Silva: poeta, historiador, diplomata, ensaísta, memorialista, crítico de arte e, também, amigo, esposo, avô de sete netos e pai de três filhos, todos vinculados ao Itamaraty: os embaixadores Pedro Miguel e Antônio Francisco e a embaixadora Elza Maria. Em entrevista concedida a colegas diplomatas pouco antes de sua morte, publicada na Revista Juca, o embaixador aposentado caracterizou a política externa como uma “área de afeto”, que lida com sentimentos, percepções e representações que constituem elemento importante da diplomacia[3]. Falecido em 26 de novembro de 2023, aos 92 anos, Alberto da Costa e Silva deixou um longo e profundo legado diplomático e acadêmico, o qual atesta a natureza transdisciplinar e complexa da curiosidade intelectual que alicerça o fazer da diplomacia.
[1] Em Os bastidores da diplomacia, Guilherme Luiz Leite Ribeiro relata uma anedota envolvendo o pai do embaixador Alberto da Costa e Silva e o barão do Rio Branco. Segundo o autor, “Nos tempos do barão do Rio Branco não havia concurso para ingressar na carreira diplomática, e a seleção era feita pessoalmente por ele, que conversava com os candidatos, em geral pessoas de família conhecida, de preferência bonitos e que falassem línguas estrangeiras. Antônio Francisco da Costa e Silva, ilustre poeta e pai do embaixador e acadêmico Alberto Vasconcellos da Costa e Silva, conversou com o barão sobre a possibilidade de ingresso na carreira, porém o chanceler foi taxativo: ‘Olha, o senhor é um homem inteligente, admiro-o como poeta, contudo não vou nomeá-lo porque o senhor é muito feio e não quero gente feia no Itamaraty...’”. Essa história foi repetida pelo próprio Alberto da Costa e Silva, em diversas entrevistas concedidas ao longo dos anos, e relembrada, recentemente, pela reportagem “Alberto da Costa e Silva e os feios no Itamaraty”, publicada pelo jornal Folha de São Paulo, em dezembro de 2023, após sua morte.
[2] Sobretudo da outrora denominada “Costa dos Escravos”: Nigéria, Camarões, Togo, Benin e Gana.
[3] Revista Juca 11, página 211.