No estudo das Relações Internacionais (RI), ganhou espaço na segunda metade do século XX a aplicação de conceitos como aqueles provenientes da Teoria dos Jogos, que surgiu nos estudos da Matemática e acabou sendo transportada para a Economia. A Teoria dos Jogos tem como objetivo principal compreender a lógica dos processos de tomada de decisão, para, assim, equalizar conflitos de interesse, tendo como foco as estratégias dos “jogadores” envolvidos. Nas RI, os jogos mais utilizados para embasar as primeiras aplicações da teoria foram o “Dilema do Prisioneiro” e o “Jogo da Galinha”. A premissa central dessa teoria é a escolha racional; todavia, jogos podem envolver assimetria de informações, fazendo com que decisões estrategicamente racionais possam levar a resultado insatisfatório para todos: o “Equilíbrio de Nash”.
Thomas Schelling, autor de A Estratégia do Conflito (1960). Principal expoente do chamado Realismo Estratégico, que se preocupa sobretudo com o processo de tomada de decisões na política externa. A análise da teoria estratégica tem interesse na descrição das alternativas disponíveis a um ator e na avaliação da qualidade da tomada de decisão. Segundo Schelling, conflitos de interesse entre atores são possibilidades, e, em algumas situações, isso pode levar até a conflitos como meio de alcançar objetivos. Trata-se de teoria que atribui papel secundário aos valores na motivação do comportamento racional, com influência da chamada revolução behaviorista. Schelling, que venceu o Prêmio Nobel da Economia em 2005, mostrava especial preocupação com ameaças e perigos da guerra nuclear.
Robert Jervis, autor de Cooperação sob o Dilema de Segurança (1978). Jervis aplica a Teoria dos Jogos à análise da cooperação internacional em segurança, valendo-se do exemplo da “caça ao cervo”: a cooperação mútua leva ao melhor resultado, ao passo que o pior resultado decorre de cooperar e ser traído, o que cria forte incentivo aos jogadores em trair, caso não tenham certeza de que os demais jogadores cooperarão. Segundo Jervis, o sistema internacional anárquico gera ambiente de tensão entre os países, o que se agrava pelo dilema de segurança. Esse dilema pode ser atenuado pelo equilíbrio entre ataque e defesa e pela diferenciação entre ataque e defesa. A dissuasão, nesse cenário, torna-se ferramenta de manutenção do statu quo, em conexão a preceitos do realismo defensivo. Para mais detalhes sobre a contribuição de Jervis para a Teoria das RI, ver a seção específica no próximo tópico.
Robert Putnam, autor de Diplomacia e política doméstica: a lógica dos jogos de dois níveis (1988). Dentro da obra de Putnam, identifica-se que, com frequência, política doméstica e relações internacionais são inextricavelmente vinculadas. Disso decorre a conclusão de que os comportamentos adotados pelos países nas negociações internacionais refletem imperativos simultâneos de um jogo de política doméstica e de um jogo de política internacional. Putnam introduz a noção de win-set: no tabuleiro internacional, os países entram em negociações com um conjunto definido de objetivos, e espera-se que os negociadores dos países envolvidos cheguem a uma gama de possibilidades de desfechos nos quais seus objetivos se sobrepõem. No entanto, antes de comprometer-se com concessões, o negociador de um país precisa obter a aprovação de seus representantes domésticos, por meio de votações ou pesquisas de opinião. Esse conjunto de possíveis desfechos de negociações internacionais aceitos por grupos domésticos é chamado de win-set por Putnam, e os acordos internacionais apenas são concluídos quando há coincidência entre os win-sets de todos os países envolvidos.
O campo da EPI pode ser considerado uma subdisciplina das RI, que tem como objeto de estudo a interrelação entre política e economia internacionais, que se afetam mutuamente, gerando consequências distributivas, com vencedores e perdedores. Há diversas vertentes de EPI: a vertente liberal pode ser representada pela interdependência complexa de Keohane e Nye; a vertente mercantilista/realista deriva principalmente da Teoria da Estabilidade Hegemônica de Gilpin e Krasner e das contribuições de Strange; e a vertente marxista é ilustrada pela teoria da dependência. A EPI está no centro das discussões do chamado terceiro debate das Teorias de RI (TRI), o debate interparadigmático.
Robert Gilpin, autor de O Poder dos EUA e as Corporações Multinacionais (1975) e Guerra e Mudança na Política Mundial (1981). No primeiro livro, a obra de Gilpin, uma das principais da chamada Teoria da Estabilidade Hegemônica, faz interseção entre a EPI e a TRI. Para o autor, a estabilidade da ordem internacional depende de um hegemon. No cenário em que a obra foi lançada, Gilpin apontava que a ameaça à hegemonia dos Estados Unidos (EUA) viria de outros centros do capitalismo, e não da União Soviética (URSS). No segundo livro, Gilpin trata do processo de ascensão e queda das potências hegemônicas, no chamado “realismo de ascensão e queda”. Para o autor, os agentes buscam promover mudanças para satisfação de seus interesses (território, influência e controle da economia mundial, entre outros), e suas decisões são tomadas com base em cálculo de custo-benefício. Gilpin argumenta que as mudanças são recorrentes na política mundial, causadas pela diferença de poder relativo entre os Estados, e, em geral, ocorrem por meio de processo de acomodação pacífica e de conflitos limitados nas interações entre os Estados. Ele descreve três tipos de mudança: do sistema (mudança da natureza dos atores), sistêmica (alteração da potência hegemônica) e da interação (mudança na natureza da interação). A redistribuição do poder leva a desequilíbrio, crise e conflitos, e a guerra hegemônica é vista por Gilpin como o principal mecanismo de mudança.
Charles Kindleberger, autor de O Mundo em Depressão 1929-1933 (1973). Para Kindleberger, outro expoente da Teoria da Estabilidade Hegemônica, a Grande Depressão iniciada em 1929 teria tido como um dos fatores causais a ausência de hegemon após o fim da Primeira Guerra Mundial. A situação de emergência contemporânea da China, em cenário de declínio do poder estadunidense, mas sem que Pequim tenha condições de prover bens públicos globais, seria descrita por Joseph Nye em 2017 como a “Armadilha de Kindleberger”.
Stephen Krasner, autor de Poder do Estado e Estrutura do Comércio Internacional (1976) e Causas Estruturais e Consequências dos Regimes Internacionais: Regimes Como Variáveis Intervenientes (1982). Na primeira obra, Krasner também trata do conceito de hegemon, e apregoa que o mundo se torna mais aberto e globalizado quando há a presença de uma potência hegemônica. No segundo livro, Krasner introduz outro conceito central para o estudo das RI, o de regime (definido pelo autor como “princípios, normas, regras e procedimentos para a tomada de decisões, implícitos ou explícitos, em função dos quais as expectativas dos atores convergem em uma determinada área das relações internacionais”).
Susan Strange, autora de Economia Internacional e Relações Internacionais: Um Caso de Negligência Mútua (1970) e Estados e Mercados (1988). Na primeira obra, Strange também identifica o vínculo estreito entre política e economia, e defende a constituição do campo de EPI. Já no final da década de 1980, a segunda obra da autora afasta-se dos fundamentos da Teoria da Estabilidade Hegemônica, e introduz os conceitos de poder relacional e de poder estrutural: este seria o poder de moldar e determinar a estrutura da economia política global, com quatro dimensões (segurança, produção, conhecimento e finanças); aquele seria o conceito tradicional de poder, baseado na ideia de compelir alguém a fazer algo. Strange diagnostica o declínio da autoridade estatal e a crescente assimetria em termos de poder estrutural entre os Estados: se, por um lado, os EUA ainda detinham controle sob parcela significativa da produção mundial, mesmo que fora de seu território, por outro lado tomaram más decisões para a manutenção da ordem econômica internacional.
Robert Cox, autor de Abordagem da Ordem Mundial (1996). Cox analisou, nessa obra, o processo de globalização econômica vivido à época. Para o autor, o processo envolve tanto interdependência intensificada como transição qualitativa em direção a uma economia global, que venha a substituir a economia mundial capitalista. O processo de globalização demandaria a existência de um poder territorial-militar ordenador (EUA) e, por ser processo hierárquico e desigual, promove mais dependência (dos centros industrializados) do que interdependência. Cox aplica seu método das estruturas históricas a três “níveis” ou “esferas de atividades”: forças sociais, formas estatais e ordens mundiais. Cox identifica, como forças sociais, a internacionalização da produção, as migrações e o fortalecimento dos movimentos sociais. Também discorre sobre formas estatais, derivadas das forças dominantes capitalistas em favor da não intervenção, da competição por mercados internacionais, da perda de poder do Estado-nação sobre a economia e da importância do poder não territorial e das corporações transnacionais e de organizações da sociedade civil. Por fim, quanto às ordens mundiais, identifica declínio do domínio dos EUA e emergência de uma ordem com centros de poder em conflito (macrorregiões) ou de uma ordem pós-hegemônica.
Michael Hardt e Antonio Negri, autores de Império (2000). Em obra considerada “pós-marxista”, os autores defendem que a ordem mundial atual, resultante da globalização e da consolidação da economia capitalista, abriga uma “sociedade pós-moderna” e é diferente daquela do sistema imperialista, em que a expansão do capitalismo estava vinculada ao Estado-Nação. O conceito de imperialismo passa por transformação: agora, o Império não se confunde mais com um ou mais Estados-Nações, tampouco com organizações supranacionais e empresas multinacionais, mas, sim, deriva de um novo paradigma de poder, assentado em ordem hierárquica invisível, que paira acima dos Estados e das organizações. Nesse cenário, o Império não tem limites territoriais ou temporais (forma histórica definitiva) e dedica-se à paz universal. O poder não mais se garante pela força, mas, sim, por uma ordem ética própria que se apresenta como geradora de valores e de consensos; nessa nova ordem mundial, o poder está difuso pelo tecido social, e há tendência progressiva de sepultamento do caráter “nacional” do Estado-Nação.