Os curdos formam a maior nação do mundo sem um Estado, com mais de 30 milhões de pessoas. Concentram-se na Turquia, no Iraque, no Irã, e na Síria, além de estarem presentes em outros países da região, em menor número, como na Armênia, no Líbano e na Geórgia. Entre as características gerais do povo curdo que se pode destacar estão sua origem (iraniana, nativa das regiões montanhosas da Ásia Ocidental), sua religião (majoritariamente muçulmana sunita, de escola xafeísta) e sua língua (a língua curda é um idioma indo-europeu, do ramo indo-iraniano). Outra característica geral é o pleito por independência, que, entretanto, não aglutina de maneira uniforme toda a população de origem curda. Também como traço mais ou menos comum, houve tentativas de assimilação cultural nos quatro países em que estão majoritariamente concentrados.

O pleito histórico do povo curdo por independência é indissociável do contexto da Primeira Guerra Mundial, em que se destacam a dissolução do Império Otomano, os acordos de Sykes-Pikot (1916), de Sèvres (1920) e de Lausanne (1923), além das Conferências de Sevrès (1920) e do Cairo (1921). Como antecedente, pode-se indicar que o movimento nacionalista curdo começa a ganhar força na década de 1880. São também exemplos de expressão política e de autodeterminação de curdos na História o Reino do Curdistão, entre 1922 e 1924 no mandato britânico da Mesopotâmia, e a República de Ararate, tentativa emancipacionista curda no nordeste da Turquia entre 1927 e 1930, que foi reprimida pelo exército turco.
As posições internacionais sobre o pleito variam no tempo e justificam-se conforme o binômio autodeterminação dos povos versus integridade territorial. Durante a Primeira Guerra Mundial, houve promessa das potências ocidentais em favor da criação de um Estado curdo. Posteriormente, houve apoio – ao menos retórico – da União Soviética (URSS) ao Curdistão Vermelho (unidade administrativa no Azerbaijão a partir de 1923 até os expurgos de Stalin) e à efêmera República de Mahabad em 1946 e 1947, no Irã, com participação destacada do clã Barzani.
Nas últimas décadas, os curdos cumpriram papel importante no cenário político do Iraque e estiveram envolvidos nas duas Guerras do Golfo. Durante a Guerra Irã-Iraque, foram alvo do ataque químico de Halabja. Em 1992, a região ganha autonomia de facto, em decorrência dos desdobramentos daquela guerra, e, de 1994 a 1997, os curdos estiveram no centro de um conflito interno em que se opuseram ao poder central iraquiano. No ano de 2005, com o governo que se estabeleceu após a queda de Saddam Hussein, mudanças constitucionais formalizaram a autonomia da região curda.
Destaca-se, ainda, o papel do Exército peshmerga no combate ao terrorismo. As forças peshmerga do Curdistão existem desde o advento dos movimentos de independência curda em 1920. Com a nova constituição iraquiana de 2005, foram oficialmente reconhecidas como tropas regulares do Curdistão iraquiano, região onde o Exército do Iraque está proibido por lei de atuar. Essas forças têm atuado no combate ao Estado Islâmico e contam com o apoio e cooperação do Departamento de Defesa dos Estados Unidos (EUA).
Existem dois grandes partidos curdos no Iraque: o histórico Partido Democrático do Curdistão (KDP, na sigla em inglês), formado em 1946 e controlado pela família Barzani; e sua secessão mais famosa, a União Patriótica do Curdistão (PUK, na sigla em inglês), fundado em 1975, que foi o partido dos ex-presidentes Jalal Talabani e Fuad Masum e que já travou guerra civil com o KDP, nos anos 1990. Durante a guerra, o PUK recebeu apoio do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, na sigla em curdo), ao passo que Turquia, Irã e o governo central do Iraque apoiaram o KDP. A aliança entre o PUK e o PKK desfez-se, entretanto, no século XXI.
Nos últimos anos, aumentaram as tensões entre Bagdá e o Curdistão iraquiano. Em 25 de setembro de 2017, foi realizado plebiscito na região sobre o processo de independência, o qual recebeu o voto favorável de mais de 92% dos votantes, apesar do baixo apoio e reconhecimento internacionais. Ao resultado do plebiscito se seguiu a repressão do governo iraquiano. A legalidade do referendo foi rechaçada por Bagdá, e, além do fortalecimento de medidas repressivas visando reprimir demonstrações sociais de independentismo, foram realizadas ações militares imediatas contra o território do Curdistão. A região autônoma acabou perdendo 40% de seu território, com destaque para a região petroleira de Kirkuk. A realização do plebiscito também gerou movimentações contrárias do Irã, que utilizou tropas em apoio ao Iraque nas regiões curdas situadas em suas fronteiras.
O presidente do Curdistão Iraquiano é Nechirvan Barzani (KDP), sucedendo seu irmão, Masoud, que foi o presidente da região de 2005 a 2017, quando renunciou ao cargo, após o fracasso do plebiscito e em um momento em que o poder curdo optava claramente por buscar um relaxamento das tensões subsequentes. Seu atual primeiro-ministro é Masrour Barzani. O vice-primeiro-ministro é Qubad Talabani, do PUK.
O atual presidente do Iraque, Abdul Latif Rashid, é integrante do PUK. O ex-presidente do país, Barham Salih, também foi primeiro-ministro do Curdistão Iraquiano e integrante do PUK.
Subsistem tensões entre o Curdistão iraquiano e o governo central em razão do petróleo. Em abril de 2023, após dez dias de interrupção, o governo do Iraque e autoridades curdas chegaram a um acordo para a retomada de exportações de petróleo iraquiano utilizando-se de oleoduto que passa pelo território curdo e que vai à Turquia, de onde pode seguir à Europa[1]. De acordo com Masrour Barzani, o acordo tem caráter temporário, até que o parlamento iraquiano aprove novo marco nacional de petróleo e gás. Apesar do acordo, a exportação do petróleo proveniente do território curdo permanece suspensa há cerca de um ano, em meio a divergência de posições entre Bagdá e Ancara, causando importante impacto econômico sobre o Curdistão iraquiano.
Em agosto de 2023, os governos do Iraque e do Irã chegaram a um acordo para desarmar e realocar grupos curdos iranianos dissidentes baseados no norte do Iraque. No início de setembro, as tensões aumentaram em Kirkuk, cidade historicamente disputada entre o governo federal de Bagdá e as autoridades da região autônoma do Curdistão iraquiano. Grupos árabes e turcomanos enfrentaram-se contra grupos curdos, em meio a boatos de que Kirkuk seria entregue pelo governo iraquiano para a região autônoma do Curdistão.
Em maio de 2024, a Turquia realizou um ataque aéreo no norte do Iraque, que supostamente matou 16 membros do PKK, incluindo comandantes. O ataque mirou separatistas nas regiões de Hakurk, Metina e Gara do semiautônomo Curdistão iraquiano. Ancara vinha estreitando os laços com Bagdá em semanas anteriores a fim de combater o grupo militante. Em abril, Erdoğan havia realizado a primeira viagem ao Iraque em doze anos, quando foram assinados diversos acordos bilaterais. Erdoğan é próximo dos Barzani, uma vez que o KDP, primeiramente um aliado nos anos 1980, passou a enfrentar o PKK em território iraquiano anos depois.
Para mais detalhes sobre o Iraque, ver seção posterior.
A questão dos curdos na Síria ganha em relevância a partir da guerra civil que se instaurou no país em 2011 e do combate ao autodenominado Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS ou ISIL, também conhecido como Daesh). Os curdos são componentes importante das Forças Democráticas Sírias (FDS)[2], por meio do Partido da União Democrática (PYD, na sigla em curdo) e de seu braço armado, as Unidades de Proteção Popular (YPG, na sigla em curdo). Estão concentrados espacialmente na região de Rojava, o Curdistão Sírio, que detém autonomia de facto desde 2012, por meio de autodeclaração. Tornou-se uma administração transitória em 2013, região autônoma em 2014 e federação em 2016. Em 2018, o Conselho Democrático Sírio, braço político das FDS, renomeou a região para Administração Autônoma do Norte e do Leste da Síria (AANES, na sigla em inglês).