O Iêmen é um país que ocupa a porção sul da península Arábica, compartilhando sua fronteira ao norte com a Arábia Saudita e ao leste com Omã, e estando na parte asiática do estreito de Bab al-Mandab, que separa a península Arábica do leste de África e liga o golfo de Áden ao mar Vermelho. Sua capital é Saná, cidade que fica na porção noroeste do país. Devido a sua posição geográfica, o território iemenita foi, ao longo de toda a sua história, alvo de diversas intervenções estrangeiras. Para ilustrar a sua importância geopolítica e econômica, atualmente se estima que pelas águas do estreito de Bab al-Mandab circulam quase 40% de todo o comércio marítimo internacional e pelo menos 30% da produção de petróleo.
Três eventos da segunda metade do século XIX deixaram marcas significativas no desenvolvimento político do país no século seguinte. O primeiro desses eventos foi a presença do Império Otomano, principalmente na administração da porção norte do país. O segundo foi a abertura do canal de Suez em 1869, que amplificou a importância geopolítica das cidades portuárias do território iemenita. Por fim, deve-se mencionar a presença do Império Britânico, que, apesar de já exercer o controle portuário da cidade de Adem desde 1839, a partir da abertura do canal de Suez, se expandiu, principalmente sobre a porção sul iemenita, definindo a área como protetorado britânico.
Desse modo, as duas potências imperiais arquitetaram um arranjo político, com a colaboração das elites locais que, de alguma maneira, produziu, um certo grau de estabilidade política da segunda metade do século XIX até o começo do século XX. Em 1914, otomanos e britânicos chegaram a demarcar uma linha de fronteira, dividindo o país e consolidando as suas posições, porém, o desfecho da Primeira Guerra Mundial foi amplamente desfavorável aos otomanos. Aproveitando-se da debilidade militar e política do Império Otomano, bem como de sua iminente fragmentação territorial, grupos de rebeldes árabes, com o apoio da França e da Inglaterra, se insurgiram contra as forças otomanas. Apesar da expulsão dos otomanos do Oriente Médio, os grupos rebeldes não conseguiram promover a independência imediata dos diferentes reinos locais, tampouco criar um Estado Árabe.
Em 1918, sob a liderança de Yahya ad-Din, o Reino Mutavaquilita do Iêmen – na parte norte do atual Iêmen – proclamou a sua independência em relação à autoridade otomana, sendo reconhecido como independente pelos britânicos, que ainda controlavam a parte sul do país, em 1925. Entretanto, em 1926, o vizinho Reino do Hejaz e Négede invade o Iêmen, com o objetivo de unificar toda a península, sem sucesso naquele momento, e, em 1934, seu sucessor, o Reino da Arábia Saudita, com o apoio britânico, declarou guerra ao Reino Mutavaquilita do Iêmen tendo conquistado uma parcela significativa do território iemenita e o antigo emirado de Asir.
Nas décadas de 1950 e 1960, tendências estruturantes da economia mundial acentuaram a importância do Oriente Médio na ordem internacional. Não obstante, países da região, principalmente aqueles com grandes reservas de petróleo, tornaram-se alvos frequentes das mais diversas formas de intervenção e ingerência em assuntos internos. Instabilidade política, golpes de Estado, regimes autocráticos, exploração predatória dos recursos naturais (petróleo e gás), pobreza, revoltas populares, entre outras mazelas, faziam do Oriente Médio um terreno fértil para a difusão de grupos e de ideologias inspiradas no nacionalismo árabe[1].
Nesse contexto, no Reino Mutavaquilita do Iêmen, em 1962, grupos nacionalistas republicanos e parte dos militares destituíram do poder o rei recém-empossado Muhammad Al-BadrAl-Badr. Sob a liderança de Abdullah as-Sallal, eles se consolidaram em todas as regiões do país e, posteriormente, proclamaram a República Árabe do Iêmen. Neste ínterim, o rei deposto Al-Badr conseguiu apoio diplomático do Reino Unido, bem como ajuda militar da Jordânia e da Arábia Saudita para tentar organizar uma resistência aos nacionalistas. Por sua vez, os republicanos também se articulavam internacionalmente, tendo o Egito como principal aliado. Esta composição de fatores antagônicos, tanto internos, quanto externos, levou a parte norte do Iêmen a mergulhar numa guerra civil que durou até 1970.
Paralelamente, em 1963, na porção sul do Iêmen, surgiu a Frente de Libertação Nacional (FLN). Inspirados nos grupos de guerrilha marxistas, a FLN promovia ações táticas de insurgência contra autoridades e colaboradores da dominação britânica. Após quatro anos de insurreições, os nacionalistas do sul conseguiram desgastar a autoridade britânica coagindo as forças leais à coroa inglesa a deixarem o país. No ano seguinte, foi proclamada a República Popular do Iêmen do Sul, e, em junho de 1969, setores mais radicais da FLN tomaram o poder e proclamaram a República Popular Democrática do Iêmen, estreitando relações com a União Soviética (URSS), Cuba e a República Popular da China (RPC).
A Arábia Saudita assistia com muita preocupação aos desdobramentos políticos tanto no Iêmen do Sul quanto no Iêmen do Norte. Tal apreensão ficou ainda mais evidente em 1972, quando, após uma breve guerra, as duas repúblicas assinaram o Acordo do Cairo, com a intenção de unificar as duas porções do país. A possibilidade de um Iêmen unificado e com forte presença comunista, levou o reino saudita a intensificar suas intervenções sobre o território iemenita. Para evitar que o vizinho se tornasse um centro de difusão de ideias seculares e socialistas, o governo saudita fomentou o avanço de grupos opositores contra o governo socialista do sul. Somado a isso, a Arábia Saudita também apoiou o golpe militar no Iêmen do Norte, em junho de 1974, boicotando veementemente o processo de unificação iemenita iniciado dois anos antes.
Em 1979, eclodiu uma nova guerra entre norte e sul, que durou um mês. Após a mediação da Liga dos Estados Árabes (LEA), as partes decidiram pelo fim das hostilidades, e as tratativas para unificação do Iêmen foram retomadas em 1981. Já em 1985, com a descoberta de jazidas de petróleo no território iemenita, as duas repúblicas estreitaram laços e passaram a estabelecer políticas de cooperação econômica para facilitar e acelerar a extração das riquezas minerais.
Entretanto, em 1986, no sul do Iêmen, uma crise entre as lideranças do Partido Socialista Iemenita, somado a uma disputa acirrada entre grupos tribais por influência política no interior país, culminou em uma violenta guerra civil. Aproximadamente 60 mil iemenitas fugiram para o norte, e estimativas apontam que entre quatro mil e dez mil pessoas morreram no conflito. Os anos seguintes foram difíceis para o Iêmen do Sul. Além da destruição causada pela guerra civil, a queda da URSS e o consequente fim da assistência fornecida por Moscou agravaram ainda mais o cenário de crise no do sul.
Para evitar que futuros conflitos atrapalhasse a extração do hidrocarboneto, em 1988 os dois países decidiram que os locais dos poços de petróleo deveriam ser considerados como áreas desmilitarizadas. Juntamente com as dificuldades por que passava o Iêmen do Sul após perder seu grande aliado, com o fim da URSS, tal medida ajudou a construir as condições para que, em 22 de maio de 1990, as duas repúblicas anunciassem a unificação e o surgimento da República do Iêmen, sob domínio da antiga república do norte. Diferente da experiência anterior, em 1972, o processo de negociação para a unificação transcorreu muito rapidamente, numa clara tentativa de evitar intervenções e ingerências de atores externos.
No que vem sendo considerada a pior crise humanitária da atualidade, a guerra civil no Iêmen coloca cerca de 70% dos trinta milhões de habitantes em necessidade de ajuda humanitária, e estima-se que já deslocou 4,5 milhões de pessoas. A insegurança alimentar, a fome e as epidemias de cólera e de outras doenças, além da violência do conflito, já mataram mais de 370 mil pessoas. Se por um lado a guerra na Ucrânia e a pandemia de COVID-19 agravaram a situação humanitária, por outro, a trégua patrocinada pela Organização das Nações Unidas (ONU), que se sustentou formalmente de abril a outubro de 2022 e informalmente deste então, permitiu a entrega de combustível e de ajuda humanitária através do porto de Hodeida. Com o fim formal da trégua, a violência poderá ser retomada a qualquer momento, piorando a situação humanitária de um conflito, cuja solução permanente não se vislumbra.

Fonte: Congressional Research Service
O conflito opõe os houthis, apoiados pelo Irã, e as forças anti-houthis, que são apoiadas pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos (EAU). Os houthis, autodenominados Ansar Allah (“partidários de Deus”, em árabe), são um grupo xiita zaidita[2], minoritários no Iêmen, e originários de Saada, no extremo norte do país[3]. O grupo tem longo histórico de conflito com outras tribos iemenitas e com a Arábia Saudita. Nas forças anti-houthis, é possível identificar dois grupos de interesses. O primeiro é representado pelo governo internacionalmente reconhecido do Iêmen, liderado, até abril de 2022, por Adbrabbu Mansour Hadi, internamente apoiado pelo Islah (partido sunita, próximo da Irmandade Muçulmana), pelo General People’s Congress (GPC, antigo grupo político do ex-presidente Ali Abdullah Saleh) e externamente pela Arábia Saudita. O segundo, que defende maior autonomia da região sul do Iêmen, reúne o Conselho de Transição do Sul (STC, na sigla em inglês), a Resistência Nacional, liderada por Tareq Saleh, além de outros grupos, como o salafista Giant Brigades e a Guarda Republicana. Desde 2019, quando patrocinaram o Acordo de Riade entre o governo Hadi e o STC, Arábia Saudita e os EAU têm buscado unificar a liderança anti-houthi sem sucesso. Em abril de 2022, no contexto da trégua patrocinada pela ONU, Hadi deixou a presidência e transferiu o governo do Iêmen para o Conselho de Liderança Presidencial (CLP), composto por oito membros e com representação paritária entre o norte e o sul. O CLP é liderado Rashad al-Alimi e conta com a participação de outras lideranças como Tareq Saleh.
Ali Abdullah Saleh governou o Iêmen do Norte desde 1978 e manteve o posto após a unificação do país em 1990. Em 2011, na esteira da Primavera Árabe, perdeu apoio interno e foi convencido pelos países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) a deixar o poder; contudo manteve-se ativo politicamente e tentou retomar o poder sabotando o processo de transição política, liderado por Hadi, que havia sido seu vice-presidente por 17 anos. Saleh aliou-se aos houthis, que, insatisfeitos com a transição política, atacaram o governo Hadi.
A guerra civil começa em setembro de 2014, quando os houthis e Saleh conquistam a capital Saná e a cidade portuária de Hodeida e, em janeiro de 2015, forçam a renúncia do presidente Hadi. Dias depois, Hadi reestabelece seu governo em Áden, no sul do país. Diante da ofensiva houthi contra Áden, Hadi foge para Arábia Saudita. Em 2015, o Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) aprovou a Resolução 2216, que reconheceu a legitimidade do governo Hadi e autorizou embargo de armas aos houthis, que, desde 2016, vem sendo implementado pelo Mecanismo de Verificação e Inspeção das Nações Unidas para o Iêmen (UNVIM, na sigla em inglês). A pedido do presidente iemenita, os sauditas organizam uma coalizão de países árabes[4] contra os houthis e, inicialmente, conseguem frear seu avanço por meio de ataques aéreos. Em dezembro de 2017, Saleh anuncia que estaria pronto a negociar com os sauditas e o governo Hadi, rompendo sua aliança com os houthis, que o matam dois dias depois. As tropas leais a Saleh passam a ser lideradas pelo seu sobrinho, Tareq Saleh. Apesar da ofensiva aérea saudita, a partir de 2018, as forças houthis conseguem controlar quase a totalidade do antigo Iêmen do Norte, que concentra mais de 70% da população do país. Sem conseguir uma vitória militar decisiva sobre os houthis, a Arábia Saudita tenta estrangulá-los economicamente, impondo o bloqueio ao porto de Hodeida, por onde entrava a maior parte dos alimentos e combustíveis para o Iêmen. Esse bloqueio agravou a situação humanitária no país e estimulou o tráfico de bens básicos, combustíveis e armas, que enriquece warlords locais e dificulta o processo de paz. Em 2018, a coalizão saudita faz uma ofensiva para retomar o porto de Hodeida. Em dezembro, sob os auspícios da ONU, o governo Hadi e os houthis assinam o Acordo de Estocolmo[5], cujo elemento mais significativo foi ter conseguido evitar uma batalha por Hodeida e ter previsto a administração conjunta da segurança e das rendas do porto. A Resolução 2452 do CSNU estabeleceu a Missão das Nações Unidas para apoio ao Acordo de Hodeida (UNMHA, na sigla em inglês), com o objetivo de supervisionar o Acordo de Estocolmo.
Enquanto isso, em 2017, surge o STC, que deseja restaurar a independência do Iêmen do Sul. Em janeiro de 2018, com apoio dos EAU, o STC conquista Áden e as províncias próximas. Em 2019, Arábia Saudita e EAU patrocinaram um acordo de compartilhamento de poder entre o governo Hadi e o STC (Acordo de Riade), sem grandes efeitos. Também em 2019, os houthis atacam refinarias sauditas com drones, comprometendo metade da produção de petróleo saudita. Os sauditas acusam o Irã de fornecer apoio material e financeiro aos houthis, o que os dois últimos negam, apesar das evidências materiais, uma vez que os drones identificados nos ataques houthis são modelos iranianos e o grupo não teria capacidade tecnológica para desenvolver esse tipo de armamento. Em dezembro de 2020, um novo acordo de compartilhamento é concluído, e um novo gabinete é formado com membros do STC e do Islah. Após o novo governo compartilhado sofrer um atentado, atribuído aos houthis por Hadi e pelo STC, a coalizão saudita ataca Saná. O governo Trump utilizou esse atentado como argumento para classificar os houthis como grupo terrorista, porém o governo Biden reverteu essa decisão em fevereiro de 2021. Em novembro de 2021, houthis avançavam em direção às províncias de Marib e Shabwa, a primeira rica em petróleo e gás e última região do antigo Iêmen do Norte ainda controlado por forças leais a governo Hadi, e a segunda uma importante ligação com a porção leste do país. Contudo, uma intervenção dos EAU impediu o avanço houthi. No mesmo mês, as forças da coalizão saudita desocupam Hodeida, em conformidade ao Acordo de Estocolmo, e os houthis avançam posições na cidade, contrariando a trégua e consolidando seu controle sobre a porção oeste do país. Ataques houthis contra os EAU, no início de 2022, classificados como atos terroristas na Resolução 2624 do CSNU[6], levaram o governo estadunidense a sancionar lideranças houthis. Apesar de pressões internas e externas, os EUA resistiam, durante o goerno Biden, a classificar os houthis como “organização terrorista estrangeira” (FTO, na sigla em inglês), para não dificultar a entrega de ajuda humanitária ao país. O ataque aos EAU demonstra a expansão do alcance das armas houthi e preocupou Israel.