Histórico e situação nacional

O Líbano esteve sob mandato francês de 1920 a 1943. Em novembro de 1943, após a realização de eleições chanceladas pelos franceses, formou-se um governo no Líbano que, unilateralmente, declarou a independência do país. A França reagiu prendendo os líderes libaneses, que, diante da enorme pressão popular, foram libertados em 22 de novembro. Essa é a data de independência libanesa comemorada hoje em dia, mas a autonomia plena veio somente com o final da Segunda Guerra Mundial, com o fim da ocupação do país pelas tropas aliadas e a admissão do Líbano como Estado-Membro fundador da Organização das Nações Unidas (ONU).

A pedra basilar do Estado libanês reside no Acordo Nacional, de 1943, um pacto não escrito firmado entre as principais lideranças confessionais[1]: cristãos maronitas, muçulmanos sunitas e muçulmanos xiitas. O Acordo de 1943 reconhece o Líbano como um Estado multiconfessional e estabeleceu a divisão tripartite política mantida até hoje: o presidente da República deve sempre ser um cristão maronita, o primeiro-ministro, sempre um muçulmano sunita, e o presidente do Parlamento, sempre um muçulmano xiita[2]. Outras confissões religiosas, de menor tamanho e poder, obtiveram também espaços de representação no Estado, como os cristãos greco-ortodoxos, que sempre indicam o vice-presidente do Parlamento. Outro ponto fundamental disciplinado pelo Pacto de 1943 concerne à independência política do Líbano: os cristãos, mormente os maronitas, comprometeram-se em não recorrer a intervenções do Ocidente no país[3], ao passo que os muçulmanos abandonaram aspirações de unir-se à Síria[4]. Por fim, ficou estabelecido ainda que a divisão de assentos no Parlamento libanês obedeceria sempre a uma proporção de 6:5 em favor dos cristãos em relação aos muçulmanos e drusos[5].

Em maio de 1948, o Líbano apoiou os países árabes na guerra contra o recém-criado Estado de Israel, concedendo apoio logístico e voluntários, mas não houve envolvimento militar oficial[6]. O maior impacto da guerra para o Líbano foi a enorme imigração palestina: cerca de cem mil palestinos fugiram para o país devido ao conflito. De 1943 a 1958, o Líbano teve dois presidentes: Bechara El Khoury (1943-1952) e Camille Chamoun (1952-1958). O período foi marcado por um boom econômico, puxado pelos setores de finanças e turismo. Ao final do governo Chamoun, no entanto, houve uma tentativa fracassada de golpe promovida por grupos pan-arabistas, com apoio do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser (1954-1970). Chamoun rompe um dos princípios acordados em 1943 e apela a uma intervenção militar dos Estados Unidos (EUA) para se manter no poder. Superada a crise de 1958, o Líbano retomou a trajetória de prosperidade econômica, atraindo investimentos externos não só do Ocidente, mas cada vez mais dos países exportadores de petróleo do golfo Pérsico. Em 1967, dois fatos interromperiam novamente o crescimento libanês: a quebra do banco Yousef Beidas, o maior do país; e a Guerra dos Seis Dias.

Assim como em 1948, também em 1967 o Líbano se recusou a agir militarmente contra Israel. Mais uma vez, os embates entre árabes e israelenses resultaram em novo grande fluxo de refugiados palestinos. Em 1968, os fedayin (militantes armados) palestinos passaram a planejar, do sul libanês, ataques a Israel, incluindo o sequestro de uma aeronave civil da empresa israelense El Al. Em dezembro de 1968, Israel realizou, em resposta, sua primeira intervenção militar em território libanês, bombardeando o aeroporto de Beirute. O incidente foi amplamente reprovado pela comunidade internacional, inclusive pelos EUA, pela França e pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU)[7].

Em 1969, Nasser mediou a celebração do Acordo do Cairo, assinado entre o governo libanês e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), de Yasser Arafat. Pelo acordo, a OLP reconhecia a soberania libanesa e obtinha, em troca, autonomia para administrar os campos de refugiados palestinos no Líbano, assim como rotas de acesso ao norte de Israel. O Acordo do Cairo gerou grande frustração entre a população libanesa cristã, que acusou o governo de conceder demais a Arafat. É nesse contexto que as Falanges, grupo maronita, passam a defender a luta armada. O Setembro Negro[8], em 1970, ampliou ainda mais a presença da militância palestina no Líbano, sobretudo no sul do país. A OLP intensificou os ataques a Israel a partir do território libanês, e Israel, em contrapartida, aumentou os bombardeios ao sul do Líbano.

Em abril de 1975, estoura a guerra civil libanesa. As razões internas para o conflito incluem a extrema fragmentação étnico-religiosa do país; a estrutura engessada do governo libanês sob um controle cristão desproporcional, que, naquele momento, já não era majoritário em termos de população do país; o crescimento dos palestinos como força demográfica e política interna, alterando o sensível statu quo político; e o surgimento de grupos armados, diante da falência do sistema democrático em acomodar as transformações necessárias. Entre as razões externas, estão o conflito Israel-Palestina, o Setembro Negro, as difíceis relações com a Síria, o pan-arabismo e o socialismo árabe dos anos 1970, e, em um contexto maior, a Guerra Fria.

O conflito começou entre os fedayin da OLP e as Falanges cristãs em Beirute. De modo geral, formaram-se duas grandes alianças: de um lado, muçulmanos, pan-arabistas e grupos de esquerda juntaram-se aos palestinos; do outro lado, lutavam maronitas e greco-ortodoxos. É importante, no entanto, não se adotar uma visão simplista da guerra, já que as alianças eram instáveis e efêmeras, sendo comuns os embates internos entre elas. Havia ainda as confissões que não se aliaram a nenhum dos dois lados, como os drusos, com uma importante força militar própria na região montanhosa do Chouf, e os armênios, que apesar de cristãos, tendiam a apoiar ideias de esquerda. Foi grande também a participação de grupos armados seculares, como o Partido Comunista Libanês, partidos pró-Síria, o Exército do Sul do Líbano (SLA, na sigla em inglês), que era pró-Israel, e o Kurdistan Workers’ Party (PKK). Por fim, foram muitas as intervenções externas na guerra, mormente de Israel, da Síria, do Irã e dos EUA, tornando o conflito ainda mais complexo. Houve também apoio do Iraque de Saddam Hussein no final da guerra aos grupos maronitas, com o intuito de contrabalançar o apoio iraniano ao Hezbollah.

Para fins didáticos, destacam-se como marcos de uma breve cronologia do conflito: