A Malásia é um país multiétnico do Sudeste Asiático, formado por territórios não contíguos, divididos entre o sul da península Malaia e o norte da ilha de Boréu. O país está às margens do estreito de Malaca, cuja outra borda pertence a Singapura e à Indonésia. O estreito é uma das principais rotas marítimas comerciais do mundo, pois conecta os oceanos Índico e Pacífico, e é foco das atenções geopolíticas atuais.
Antiga colônia britânica, a Malásia alcançou a independência apenas em 1957, e sua conformação remonta à criação da Federação Malaia, em 1963, que unia monarquias malaias, Singapura e ex-colônias britânicas em Bornéu. A cidade-estado de Singapura fez parte da Federação Malaia por dois anos, até ser expulsa em 1965. A união foi instável devido à desconfiança e às diferenças étnicas e ideológicas entre os líderes singapurianos e malaios. A Organização Nacional de Malaios Unidos (ONMU), que era o partido político no poder à época, via a participação do Partido de Ação Popular de Singapura na eleição geral de 1964 como uma ameaça ao seu sistema político baseado na maioria malaia. Houve tumultos raciais entre a comunidade etnicamente chinesa e a etnicamente malaia em Singapura no mesmo ano. Um ano após a eleição em 1965, o primeiro-ministro malaio Tunku Abdul Rahman decidiu pela expulsão de Singapura da federação, culminando na independência de Singapura.
Com uma população de 33 milhões de pessoas, a Malásia é fortemente influenciada por questões étnicas e religiosas. Atualmente, dois terços do país pertencem à etnia malaia, enquanto um terço é formado pelas comunidades imigrantes chinesa e indiana. Além disso, a Malásia é majoritariamente muçulmana, tendo o islamismo como religião oficial reconhecida na constituição. Nas últimas eleições, o Parti Islam Se-Malaysia (PAS), partido político baseado no fundamentalismo islâmico, tem tido crescimento eleitoral relevante, apoiado, sobretudo, por jovens provenientes de áreas urbanas e por sua tradicional base política em áreas rurais.
A Malásia é uma monarquia eletiva constitucional federal, em que o rei Ibrahim Ismail de Johor é o chefe de Estado. O cargo de chefe de Estado é rotativo, tendo o atual monarca sido eleito entre os monarcas dos nove estados monárquicos malaios, em eleições que ocorrem a cada cinco anos. Ao todo, a Malásia possui 13 estados, dos quais 9 possuem monarcas. O cargo de chefe de governo depende da nomeação real e é exercido pelo primeiro-ministro Anwar Ibrahim, cuja coalizão venceu as eleições de 2022. O Poder Legislativo malaio é bicameral, composto por uma Assembleia Nacional e uma Assembleia Popular. A primeira é formada por 70 membros, com mandatos de três anos, podendo ser reconduzidos apenas uma vez. Dos 70 membros da Assembleia Nacional, 44 são indicados pelo rei e 26 são eleitos pelas assembleias estaduais dos treze estados federados malaios. Já a Assembleia Popular possui 222 membros, eleitos em voto distrital, com mandatos de até cinco anos e sem limite de reeleição. O sufrágio, na Malásia, é concedido aos eleitores com 18 anos ou mais, e o voto não é obrigatório.
A Malásia vive um cenário de fragmentação política que dificulta a governabilidade e a estabilidade política do país. Desde sua independência, a Malásia foi governada por coalizões partidárias lideradas pelo partido Organização Nacional dos Malaios Unidos (UMNO), mas a configuração política do país mudou, em 2018, após o escândalo de corrupção envolvendo o fundo soberano 1Malaysia Development Berhad (1MDB).
O escândalo, descoberto em 2015, foi descrito pelo Departamento de Justiça dos EUA como o “maior caso de cleptocracia até o momento” e consistiu em um desvio de US$ 700 milhões do fundo para as contas pessoais do então primeiro-ministro Najib Razak (UMNO), no cargo desde 2009, por meio de empresas de fachada e de contas em paraísos fiscais. Um levantamento do governo malaio de 2020 estimou em US$ 4,5 bilhões o montante desviado do fundo. Em reação, houve protestos populares e investigações contra Razak que, apesar disso, permaneceu no cargo de primeiro-ministro e logrou arquivar as investigações.
No entanto, nas eleições de 2018, a coalizão de Razak foi derrotado pela aliança liderada pelo partido Pakatan Harapan (PH), também denominada Aliança da Esperança. Esta foi a primeira vez na história da Malásia que um partido de oposição derrotou o partido da situação. Além do desgaste decorrente do escândalo 1MDB, a candidatura do ex-primeiro-ministro Mahathir Mohamad, que ocupou a chefia de governo entre 1981 e 2003, também pesou para a derrota eleitoral de Razak. Mahathir Mohamad abandonou a UMNO após o escândalo do 1MDB, criou o partido Bersatu, em 2016, e liderou a coalizão do PH nas eleições de 2018, aos 92 anos de idade. Sua participação foi fundamental para agregar o voto do eleitorado malaio rural e assegurar a vitória eleitoral.
No âmbito do PH, Mahathir compartilhava a liderança da coalizão com Anwar Ibrahim, que havia sido vice-primeiro-ministro entre 1982 e 1998, durante o governo de Mahathir. Ex-membro da UMNO, Anwar também ocupou vários ministérios, entre eles o de Finanças durante a crise financeira asiática em 1997, e gozava de prestígio nacional e internacional. No entanto, em 1998, Mahathir e Anwar romperam politicamente, tendo este ido à oposição e sido preso por sodomia, de 1999 a 2004, quando sua condenação foi anulada por ser decorrente de perseguição política. Entre 2008 e 2015, Anwar Ibrahim exerceu o posto de líder da oposição, perdendo duas eleições no período. Em 2015, Anwar voltou a ser preso, novamente sob a acusação de sodomia.
Reunidos sob a coalizão PH para as eleições de 2018, os antigos rivais políticos Mahathir e Anwar selaram um acordo que, em caso de vitória eleitoral, consistia na libertação de Anwar e na transmissão do cargo de primeiro-ministro a ele após um período indeterminado. De fato, Anwar recebeu o perdão real e foi libertado em 2018, retornando ao parlamento em eleições suplementares no mesmo ano. No entanto, a hesitação de Mahathir em entregar o cargo a Anwar resultou em uma crise política, em 2020, na qual diversos membros do Parlamento trocaram de partidos e o Bersatu deixou a coalizão PH, o que implodiu o apoio político a Mahathir e culminou em sua renúncia.
A crise política de 2020-2022 resultou na renúncia de dois primeiros-ministros e em alta instabilidade política até a nomeação de Anwar Ibrahim como primeiro-ministro, após as eleições de 2022. Após a renúncia de Mahathir em 2020, o monarca malaio nomeou o presidente do Bersatu, Muhyiddin Yassin, como novo primeiro-ministro. No entanto, Muhyddin permaneceu apenas 17 meses no poder, pois a crise política se intensificou com o agravamento da pandemia da COVID-19 e com a oposição política de Anwar. Após a renúncia de Muhyddin, em agosto de 2021, o rei nomeou o vice-presidente da UMNO, Ismail Sabri Yaakob, após este receber o apoio da maioria dos deputados e firmar um entendimento com o PH, visando a uma tentativa de maior estabilidade política. Em 2022, houve eleições antecipadas, nas quais Anwar Ibrahim se saiu vitorioso, tendo sido nomeado primeiro-ministro para liderar um governo de coalizão. No pleito de 2022, a tradicional UNMO de Razak teve um resultado eleitoral fraco, como consequência das denúncias de corrupção que envolvem o partido, enquanto o partido fundamentalista islâmico PAS despontou como o principal adversário eleitoral de Anwar, ao ocupar 43 assentos no parlamento malaio, tornando-se o partido com a maior representação parlamentar do país[1].
Atualmente, Anwar compõe um governo de coalizão com diversos partidos, incluindo a UNMO, partido ao qual Anwar se opôs por décadas. Devido a essa ampla aliança, com mais de uma dezena de partido, seu governo tem sido forçado a implementar políticas conservadoras e a reduzir a pena e a multa concedidas ao ex-primeiro-ministro Najib Razak, o que tem gerado críticas. Em termos econômicos, seu governo conseguiu superar as consequências econômicas da pandemia, controlando a inflação e o desemprego em baixos níveis, além de retomar o ritmo de crescimento, estimado em 4,3% para 2024, segundo o FMI. Na política, Anwar notabilizou-se por defender a democracia islâmica, a superação das divisões étnicas-religiosas, visando à pacificação e à estabilidade interna, e as reformas do sistema político da Malásia.
Desde sua independência, a Malásia tem apresentado uma das maiores taxas de crescimento da Ásia e construiu economia diversificada, com setores manufatureiros e de serviços consolidados. A partir da década de 1990, a Malásia substituiu uma política econômica baseada na substituição de importações pela abertura econômica ao capital estrangeiro, o que gerou uma das maiores taxas de crescimento da Ásia e integração às cadeias globais de valor. Esse crescimento econômico foi acompanhado por significativa redução da pobreza, tendo reduzido os níveis de pobreza extrema para menos de 1% dos domicílios malaios. Essas características elevaram o país, nos anos 2000, ao grupo dos cinco Novos Tigres Asiáticos.
Atualmente, a Malásia é parte importante das cadeias regionais de fornecimento de produtos eletrônicos de consumo, fabricando peças e componentes que são exportados e montados em outros lugares. Parte importante dessa cadeia de produtos eletrônicos e de semicondutores decorre do transbordamento tecnológico das indústrias instaladas em Singapura e de investimentos chineses.
Os territórios fronteiriços de Singapura (SI), do estado malaio de Johor (JO) e das ilhas indonésias de Riau (RI) constituem o denominado “triângulo de crescimento” SIJORI, uma zona de cooperação que, por meio de infraestruturas de transporte, visa à complementaridade econômica quanto à divisão do trabalho em escala microrregional, desde a década de 1990. Isso permite a Singapura concentrar indústrias de alta tecnologia, com mão de obra qualificada, transferir para os vizinhos indústrias que utilizam mão de obra semiqualificada e mais barata e manter-se como um centro regional de comando industrial. Para a Malásia, a integração permite a integração às cadeias produtivas de alta tecnologia, como a indústria eletrônica e de semicondutores, além de desenvolver áreas carentes e de gerar empregos e renda para o país. Atualmente, Johor abriga a maior zona industrial da Malásia, denominada Pasir Gudang, com foco na montagem de semicondutores.
Há também outros projetos regionais de desenvolvimento entre Malásia e Singapura, como o projeto Iskandar, que é a maior zona econômica especial da Malásia, desde 2006. Além da modernização portuária, de transportes e de comunicação, o projeto visa à construção da nova cidade de Nusajaya, concebida exclusivamente com base nas deficiências e dificuldades que Singapura enfrenta, como a falta de disponibilidade de terrenos, o elevado custo de vida e de mão de obra e o envelhecimento da sua população. Apesar de aproveitar as complementaridades econômicas dos vizinhos como motor do desenvolvimento, as disparidades do triângulo SIJORI também fomentam a imigração ilegal, o tráfico de pessoas e atividades criminosas.