Marcos: 1974: Estabelecimento das relações diplomáticas, três anos após a independência do Catar; 2005: Visita de Celso Amorim a Doha, durante a qual o então chanceler realiza convite ao emir do Catar para participar da Cúpula América do Sul-Países Árabes (ASPA); 2010: Visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Catar, assinatura dos primeiros acordos bilaterais[1] e inauguração da primeira ligação aérea direta entre os dois países; 2021: Visita do presidente Bolsonaro, no ano de celebração do aniversário de 50 anos da independência do país.
Embaixada: O Catar abriu embaixada residente em Brasília em 1997, mas a fechou dois anos depois, alegando falta de reciprocidade por parte do Brasil. Em abril de 2005, o Brasil abriu sua embaixada residente em Doha. A embaixada catariana residente no Brasil foi reaberta em junho de 2007. Antes disso, o Brasil fazia representar-se por seu embaixador em Jedá (a partir de 1974) e em Abu Dhabi (a partir de 1983), e o Catar, por seu representante permanente junto às Nações Unidas, em Nova York.
Coordenação Política
Instâncias: Reunião de Consultas Políticas (5ª edição em 2023[2]); Grupo Parlamentar de Amizade Brasil-Catar (2013; o grupo não foi reativado após início da 55ª legislatura, em 2015).
Visitas de Alto Nível: Desde a abertura da embaixada do Catar em Brasília, as relações políticas bilaterais têm-se intensificado, evidenciadas pelo aumento considerável do número de visitas oficiais de alto nível de parte a parte. Em fevereiro de 2005, o chanceler Celso Amorim visita Doha, ocasião em que entrega ao emir do Catar convite para participar da Cúpula ASPA e anuncia a abertura de embaixada residente do Brasil naquela capital. Doha recebeu ainda a visita de chanceler brasileiro em 2008, para a II Conferência de Alto Nível sobre o Financiamento ao Desenvolvimento, e em 2011. Em janeiro de 2010, o emir Hamad al-Thani visitou o Brasil e, em maio de mesmo ano, recebeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Doha, para visita de Estado. Em novembro de 2011, foi realizada, em Brasília, a primeira reunião de Consultas Políticas Brasil-Catar. Em dezembro de 2011, o vice-presidente Michel Temer viajou a Doha para participar do 4º Fórum da Aliança das Civilizações. Em novembro de 2014, a presidente Dilma Rousseff visitou o Catar. Em 2017, visitaram o Catar o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Blairo Maggi, e o ministro da Defesa, Raul Jungmann. Em 2019, o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, visitou o Catar para tratar de expandir a cooperação bilateral na área de ciência e tecnologia. No mesmo ano, o presidente Bolsonaro visitou o Catar, ocasião em que foram assinados diversos acordos[3]. Em 2021, Bolsonaro voltou a visitar o Catar, ocasião em que felicitou o país pelos preparativos para sediar a Copa Árabe da Federação Internacional de Futebol (FIFA, na sigla em francês) em 2021 e a Copa do Mundo da FIFA em 2022 e colocou à disposição a experiência brasileira na organização de grandes eventos. Em 2023, a secretária-geral do Ministério das Relações Exteriores, embaixadora Maria Laura da Rocha, reuniu-se, em Brasília, com seu homólogo catariano na V Reunião de Consultas Políticas. No fim de outubro de 2023, o ministro Mauro Vieira conversou, por telefone, com seu homólogo sobre sobre a situação humanitária em Gaza e a perspectiva da repatriação dos brasileiros. No fim de novembro, o ministro Mauro Vieira manteve, à margem da reunião ministerial do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) sobre o Oriente Médio, reunião com os chanceleres da Arábia Saudita e da Jordânia e com o primeiro-ministro e chanceler do Catar. O presidente Lula visitou o Catar também no fim de novembro de 2023, onde se encontrou com o emir do país, o xeque Tamim bin Hamad al-Thani, e participou de um fórum empresarial. Lula agradeceu ao emir pelos esforços nas negociações entre Israel e Hamas e pela ajuda na libertação dos brasileiros em Gaza. O emir afirmou ter interesse em ampliar os investimentos bilaterais, aceitou convite do presidente Lula para uma visita ao Brasil em 2024 e para auxiliar na presidência brasileira do G20. Em novembro de 2024, o emir al-Thani visitou o Brasil, como convidado à Cúpula do G20.
Discurso Oficial: O relacionamento Brasil-Catar conta com amplo potencial de diversificação e insere-se no diálogo que o Brasil mantém com os diferentes atores de relevância no Oriente Médio e na constante troca de experiências entre países em desenvolvimento. Tem havido aprofundamento das relações políticas bilaterais, nos últimos anos, o que é corroborado pela intensificação das visitas presidenciais. Ademais, o Catar é interlocutor-chave em diferentes temas de escala global e regional, em razão de sua política externa de perfil ativo e independente, podendo desempenhar importante papel para a promoção da pas. Entre os setores com maior potencial de desenvolvimento estão o econômico-comercial, o de segurança e defesa, o de educação e o de ciência, tecnologia e inovação.
Convergências
Convergências Multilaterais: Assim como o Brasil, o Catar privilegia uma postura ativa concernente à agenda internacional e confere importância às instâncias multilaterais. O Catar sediou, por exemplo, a IV Conferência Ministerial (MC4, na sigla em inglês) da Organização Mundial do Comércio (OMC, 2001), a II Cúpula do G77+China (2005), a II Cúpula ASPA (2009) e a 18ª Conferência das Partes (COP18, na sigla em inglês, 2012) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (CQNUMC ou UNFCCC, na sigla em inglês). Os dois países condenam fortemente o fenômeno do terrorismo internacional em todas as suas formas, enfatizando a necessidade de intensificar a cooperação para enfrentar essa ameaça global.
Convergências Plurilaterais: Brasil e Catar integram o G77+China.
Convergências Regionais: O principal mecanismo de coordenação de que Brasil e Catar fazem parte, nesse contexto, é a Cúpula ASPA, mecanismo inter-regional que teve sua primeira edição realizada em Brasília, em 2005, ocasião em que foi adotada a Declaração de Brasília e assinado acordo de cooperação econômica entre Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). Ademais, o Brasil também é membro observador da Liga dos Estados Árabes (LEA).
Segurança e Defesa: Por localizar-se em região geopolítica de alta propensão a conflitos militares e paramilitares, o Catar confere especial atenção à sua capacidade de defesa e mantém alto nível de comprometimento com as demandas de suas Forças Armadas. Nesse contexto, o Catar é tradicional importador de produtos de defesa do Brasil, ficando apenas atrás da Arábia Saudita quando considerados os países do Golfo, e tem enviado representantes de alta patente à Feira de Defesa e Segurança da América Latina (LAAD, na sigla em inglês), no Rio de Janeiro, o que aponta grau de confiabilidade e prestígio à indústria militar brasileira. O Brasil também tem se feito bem representar na Exposição Internacional de Segurança Interna (Milipol, na sigla em inglês), patrocinada pelo Ministério do Interior do Catar, e na Doha Maritime Defense Exhibition and Conference (DIMDEX, na sigla em inglês), organizada bienalmente pela Marinha do emirado. Durante a visita de Bolsonaro ao Catar, em 2021, foi reforçada a importância da área de defesa para as relações bilaterais. Nesse sentido, os líderes dos dois países declararam a intenção de estudar iniciativas conjuntas na área, com base no memorando de entendimento entre ministérios da Defesa assinado em outubro de 2019, que busca promover a cooperação com ênfase em pesquisa e desenvolvimento, apoio logístico, medicina militar e fornecimento de produtos e serviços de defesa.
Comércio
Marcos: O comércio bilateral aumentou consideravelmente em pouco mais de duas décadas, tendo passado de US$ 27 milhões, no ano 2000, para o montante de US$ 1,6 bilhão, em 2022. O Brasil registra números expressivos de exportações de produtos alimentícios para o Catar, embora ainda haja espaço para crescimento. O lado catariano já demonstrou interesse no incremento da importação de grãos, em investimentos no agronegócio brasileiro, bem como em cooperação com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), diante da preocupação local em aumentar a produção de alimentos no país. Como o Catar não produz a totalidade dos alimentos que consome, a segurança alimentar é uma preocupação constante. Durante a visita de Bolsonaro ao Catar, em 2021, foi ressaltada a intenção de negociar um acordo sobre transportes marítimos. Durante a visita do presidente Lula, em 2023, o governo brasileiro sinalizou que há oportunidades comerciais nos campos de defesa, aviação e autopeças. O potencial comercial bilateral é relevante também em razão de a renda per capita do Catar ser uma das dez maiores do mundo, o que proporciona um expressivo mercado consumidor. Em outubro de 2024, o Catar abriu o seu mercado para as exportações de carne de caprinos e de ovinos do Brasil.






Desafios: Em março de 2023, o Catar impôs restrições à importação de carne bovina brasileira, em razão de um caso isolado de Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB) atípica no estado do Pará. Diferentemente da forma clássica da enfermidade, conhecida como “mal da vaca louca”, a forma atípica é de ocorrência natural e espontânea no rebanho bovino, não representando risco à saúde pública, o que tampouco justifica restrições à importação, conforme diretrizes da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA). Apesar disso, o Catar incluiu o Brasil na lista de medidas de precaução, que submetia o produto a condições restritivas. Em maio de 2023, esse desafio foi superado, uma vez que o governo do Catar anunciou o fim das restrições à carne bovina brasileira. Em 2022, as exportações de carne bovina para o Catar somaram cerca de US$ 36,9 milhões, o equivalente a seis mil toneladas do produto. No primeiro trimestre de 2023, as exportações de proteína animal ao Catar corresponderam a aproximadamente 75% do total exportado pelo Brasil.