A República de Singapura é uma cidade-Estado insular localizada na ponta sul da península Malaia, no Sudeste Asiático. Constituída por 63 ilhas, Singapura é separada da Malásia pelo estreito de Jor, ao norte, e das ilhas Riau (Indonésia) pelo estreito de Singapura, ao sul. A população de quase 6 milhões de pessoas é etnicamente diversa, mas predominantemente chinesa (74,2%), malaia (13,7%) e indiana (8,9%). O inglês, o mandarim, o malaio e o tâmil são línguas oficiais. O país[1] é o que apresenta o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) entre os países asiáticos (9° melhor do mundo em 2022, segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano 2023-2024). O seu território é altamente urbanizado, mas quase metade dele é coberto por vegetação.


A colonização britânica da ilha teve início em 1819 sob o controle da Companhia Britânica das Índias Orientais, que decidiu construir um novo porto comercial no território, então um sultanato aliado dos holandeses, com apenas mil habitantes, de origem malaia. O controle do Reino Unido foi ratificado em 1824, por meio de um novo tratado assinado com o novo sultão, aliado dos britânicos. Em 1860, com a crescente presença inglesa na Ásia, a população da ilha aumentou para 80 mil pessoas, sendo mais da metade chineses, trazidos para trabalhar em plantações de pimenta. No final do século, o porto de Singapura se beneficiou do crescimento exponencial da produção de borracha na Malásia, servindo como posto de triagem e de exportação.
Após a Primeira Guerra Mundial, os britânicos construíram a grande Base Naval de Singapura, como parte da estratégia defensiva de Singapura, que visava a conter o expansionismo japonês na Ásia. Não obstante, durante a Segunda Guerra Mundial, o Exército Imperial Japonês invadiu a Malásia britânica, culminando na Batalha de Singapura. Quando a força britânica de 60 mil soldados se rendeu, em 15 de fevereiro de 1942, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill chamou a derrota de "o pior desastre e maior rendição da história britânica". Com a rendição japonesa em 1945, a ilha foi posteriormente reocupada pelas forças britânicas, indianas e australianas.
O fracasso do Reino Unido em defender Singapura destruiu sua credibilidade como governante infalível aos olhos dos singapurenses. As décadas após a guerra presenciaram um despertar político entre a população local e o surgimento de sentimentos anticoloniais e nacionalistas, sintetizados pelo slogan Merdeka, ou "independência", na língua malaia. Os britânicos, por sua vez, estavam preparados para aumentar gradualmente a autogestão para Singapura e Malásia. Em 1º de abril de 1946, os Estabelecimentos dos Estreitos[2] foram dissolvidos, e Singapura tornou-se uma colônia da Coroa separada, com uma administração civil liderada por um governador. Em julho de 1947, foram estabelecidos Conselhos Executivos e Legislativos separados, e a eleição de seis membros do Conselho Legislativo foi agendada no ano seguinte.
Durante a década de 1950, comunistas chineses com fortes laços com sindicatos e escolas apoiaram uma guerra de guerrilha contra o governo britânico, levando à Emergência Malaia[3], na Malásia, que teve reflexos em Singapura, com protestos contra o serviço obrigatório em 1954, tumultos nas escolas de ensino médio chinesas e nos ônibus. David Marshall, líder pró-independência da Frente Trabalhista, venceu as primeiras eleições gerais de Singapura em 1955, liderando uma delegação para Londres para demandar o autogoverno completo, o que foi rechaçado pelo Reino Unido. Marshall renunciou e foi substituído por Lim Yew Hock, cujas políticas convenceram o Reino Unido a conceder a Singapura uma autonomia interna e completa para todos os assuntos, exceto a defesa e as relações exteriores.
Em 1959, o Partido da Ação Popular[4] (PAP) obteve uma vitória esmagadora nas eleições seguintes. Singapura tornou-se um estado autônomo interno dentro da Commonwealth, com Lee Kuan Yew como primeiro primeiro-ministro. O PAP era favorável à formação de uma federação com a Malásia, tendo organizado um referendo que permitiu a criação da Federação da Malásia em 1963, composta pelas antigas possessões britânicas da região (Malásia, Singapura, Brunei, Bornéu do Norte e Sarauaque). A Indonésia opôs-se ao novo país, tendo realizado ataques à bomba em Singapura. Na ilha de Singapura, tensões étnicas começaram a surgir entre malaios e chineses devido à retórica cada vez mais agressiva entre os governantes. Como consequência, em 1965, o Parlamento Malaio votou para expulsar Singapura da federação.
Singapura tornou-se, então, uma república independente, sob a liderança de Lee Kuan Yew, do PAP. Nas décadas seguintes, o país cresceu rapidamente, com foco nos setores logístico e financeiro. O sucesso econômico consolidou o domínio do PAP sobre a política do país, o que é corroborado pelo controle governamental da mídia no país e por restrições a atividades políticas. Durante seus 30 anos no poder, Lee Kuan Yew moldou o Estado singapuriano de acordo com sua filosofia de que o governo nacional deve servir como um gestor paternalista e tecnocrático de todos os aspectos da vida econômica e social do país. Para ele, liberdades individuais seriam secundárias em relação à prosperidade coletiva, e a disciplina social seria condição necessária para a prosperidade. Muitos críticos e observadores atribuem ao fundador de Singapura um autoritarismo soft. Em 1990, após 30 anos como primeiro-ministro, Lee Kuan Yew foi sucedido por Goh Chok Tong, que permaneceu no poder até 2004.
Em 2004, o filho mais velho de Lee Kuan Yew, Lee Hsien Loong, tornou-se primeiro-ministro, permanecendo no poder até hoje. Apesar de vitorioso, na última eleição, em 2020, o PAP viu crescer a oposição do Partido dos Trabalhadores, que conquistou 10 assentos no Parlamento, enquanto o PAP recebeu 61% dos votos (contra 70% na eleição anterior). Durante o mandato atual, o partido sofreu abalos devido à casos de corrupção, o que levou à prisão do ministro dos transportes e de um bilionário malaio. Além disso, um caso entre o porta-voz do parlamento e uma deputada, ambos do PAP, gerou uma crise de confiança no partido, que tem perdido o apoio dos singapurenses mais jovens. A fim de reconquistar apoio ao partido, o primeiro-ministro Lee Hsien Loong anunciou que deixará o posto em maio de 2024, em favor de seu vice, e atual ministro das finanças, Lawrence Wong, que será o candidato do PAP nas eleições gerais de 2025.
Singapura é uma economia de alta renda, com uma renda nacional bruta per capita de US$ 70.810 em 2023. O país oferece um dos ambientes regulatórios mais amigáveis para negócios do mundo para empreendedores locais e está classificado entre as economias mais competitivas do mundo. O crescimento do PIB na cidade-Estado foi um dos mais altos do mundo desde a sua independência, com uma média de cerca de 7%, a qual ultrapassa 9,2% se considerados apenas os primeiros 25 anos. Após rápida industrialização na década de 1960, a manufatura se tornou o principal motor do crescimento do país, que, diferentemente dos vizinhos, adotou políticas liberais de incentivo à atração de investimentos externos. Em 1993, empresas estrangeiras respondiam por cerca de 85% das exportações do setor manufatureiro. Assim, na década de 1990, Singapura se juntou a Hong Kong, Coreia e Taiwan (os Tigres Asiáticos), além da China, como as economias recém-industrializadas da Ásia. Os setores manufatureiro e de serviços continuam sendo os pilares da economia de alto valor agregado de Singapura. Em 2023, o crescimento geral da economia foi de 1,1%.
Em fevereiro de 2021, Singapura lançou o "Plano Verde de Singapura 2030", um movimento de toda a nação para promover a agenda nacional de desenvolvimento sustentável de Singapura. O Plano Verde estabelece metas ambiciosas e concretas para os dez anos seguintes, fortalecendo os compromissos de Singapura sob a Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável da ONU e o Acordo de Paris, e posicionando Singapura para atingir emissões líquidas zero até 2050.
Singapura continua desempenhando sua função tradicional como intermediário financeiro, enviando matérias-primas como borracha, madeira e especiarias da região do Sudeste Asiático em troca de produtos acabados tanto de dentro quanto, especialmente, de fora da região. As principais importações são de máquinas e equipamentos de transporte e petróleo bruto, enquanto máquinas e produtos petrolíferos refinados são as principais exportações. China, Estados Unidos, Indonésia, Malásia e Japão são os principais parceiros comerciais de Singapura. As atividades de entreposto, onde as mercadorias são transbordadas e às vezes processadas ou fabricadas na área portuária, representam cerca de um terço das exportações de Singapura.
Nas últimas décadas, o envelhecimento da população singapuriana atingiu níveis alarmantes, seguindo tendência observada em outros países asiáticos de rápido crescimento econômico, como a Coreia do Sul. Após a introdução de medidas de controle de natalidade após a independência, em 1965, como esterilização e aborto (ainda legais no país), a taxa de natalidade do país despencou pela metade nas duas décadas seguintes. Já em 1987, o governo passou a tentar reverter a tendência, estimulando a população a ter três filhos. Atualmente, há incentivos financeiros e subsídios para pais que decidem ter ao menos dois filhos. No entanto, a taxa de fertilidade do país nunca se recuperou, alcançando a mínima histórica de 1,1 filho por mulher em 2023 (uma das menores taxas do mundo). Ao mesmo tempo, a população da ilha tem envelhecido rapidamente. Para enfrentar o problema, a ilha tem buscado atrair estrangeiros, que já compõe mais de 30% da população do país.
Segundo Lee Kuan Yew, durante uma palestra em 2009, "a small country must seek a maximum number of friends, while maintaining the freedom to be itself as a sovereign and independent nation. Both parts of the equation – a maximum number of friends and freedom to be ourselves - are equally important and inter-related". Essa visão do pai fundador de Singapura permeia a política externa do país desde sua independência, em 1965. Não obstante, em um mundo crescentemente dividido, torna-se cada vez mais difícil manter todos os canais abertos, especialmente no que tange às grandes potências. Historicamente, a política externa de Singapura, de acordo com o livro Singapore's Grand Strategy (2023)[5], de Cheng Guan Ang, pode ser dividida em três períodos:

De acordo com a diplomacia de Singapura, a política externa do país tem como objetivos: proteger a independência e a soberania singapuriana e expandir as oportunidades dos cidadãos do país para além dos limites geográficos. Sua formulação parte dos pressupostos de que Singapura é uma pequena cidade-estado do Sudeste Asiático, com uma população multirracial. A fim de ser bem-sucedida, a política externa de Singapura tem como princípios principais: 1) precisa ter uma economia vibrante e bem-sucedida; 2) não deve tornar-se um Estado-vassalo; 3) deve ser amigo de todos, e inimigo de ninguém; 4) deve promover uma ordem mundial governada pelo Estado de Direito e pelo direito internacional; 5) deve ser um parceiro crível e consistente.